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Assunto: Passagem do Cargo de Comandante da Marinha

A Marinha do Brasil se engalana, mais uma vez, no ensejo da passagem do cargo de seu Comandante, tradicional evento que sublinha a característica de renovação, com continuidade, que marca e garante a condução exitosa da Instituição. É uma ocasião de muito simbolismo, quando a Força, unida e coesa, prepara-se para levar aquele que a chefiou até o patim superior da escada de portaló, para as honras de despedidas. Do mesmo modo, tem o cerimonial pronto para receber o seu substituto e o conduzir ao passadiço, dele aguardando as ordens de leme e de máquinas.

Esta solenidade tem, para mim, um profundo significado por duas razões primordiais.

A primeira, em face de estar transmitindo o Comando da Marinha, que representou o mais importante período de minha carreira; e a segunda, por estar deixando, após quase cinquenta e seis anos, vividos intensa e apaixonadamente, o Serviço Ativo. É um momento único, no qual, ao olhar a esteira pela popa, uma onda de lembranças toma conta da minha memória, traduzindo-se em fortes emoções e sentimentos muito caros, que me fazem recordar da camaradagem granjeada nas diversas Praças D´Armas; das atividades operativas nos passadiços e centros de informações de combate; e dos ensinamentos colhidos, fruto do convívio com superiores, pares e subordinados.

Em 1ºde março de 2007, ao assumir a mais alta posição na hierarquia naval, apresentei, em linhas gerais, as diretrizes que pautariam a minha administração.

Ao proceder um balanço do que foi efetivado, posso considerar-me realizado por ter sido fiel à mensagem inicial; feliz pelas conquistas obtidas; e orgulhoso pela coerência entre os atos praticados e os princípios forjados durante minha longa caminhada. Os desafios foram muitos mas, tendo como sustentação a lealdade e o profissionalismo de meus comandados, consegui ter ímpeto para enfrentá-los e coragem para tomar algumas difíceis decisões para sobrepujá-los.

Não pretendo elencar, nesta Ordem do Dia, os avanços que julgo terem sido alcançados, pois acredito que tal avaliação o futuro fará. Tenho a plena convicção de que não proporcionei tudo que a Força e seus componentes necessitavam e mereciam, porém busquei, incessantemente, atingir o mais alto patamar que a conjuntura política e as condições orçamentárias permitiram.

Julgo relevante, contudo, destacar o empenho despendido em prol do pessoal, por meio da recomposição parcial dos vencimentos e a elaboração da Política de Remuneração; a valorização da mulher, representada, de forma pioneira, pela promoção da primeira Almirante e pelo franqueamento do ingresso, na Escola Naval, de aspirantes femininas; e os variados empreendimentos nos setores de Saúde e de Assistência Social, com realce na atuação das Voluntárias Cisne Branco, incrementando o suporte aos militares e civis da ativa e na inatividade, bem como a seus dependentes. Essas ações convergiram para aumentar o nível de satisfação e o bem-estar de nossa gente, coerentemente com as prioridades estabelecidas.

Os assuntos de Defesa ganharam relevância nos diversos fóruns de discussão. Dentro desse contexto, elenco, como aspectos relevantes, a implementação da Estratégia Nacional de Defesa; a elaboração do Plano de Articulação e Equipamento da MB, fundamental para a revitalização dos meios; a contribuição para a expansão da Base Industrial de Defesa; a presença na área internacional, tanto no Haiti, como à frente da Força-Tarefa Marítima da Força Interina das Nações Unidas no Líbano (UNIFIL); além da participação em diversas operações com unidades pertencentes a nações amigas, em particular, na América do Sul e na África Atlântica.

Em que pese as dificuldades orçamentárias, por vezes experimentadas, os progressos foram significativos, permitindo a estruturação e a materialização de importantes projetos estratégicos, dentre os quais apenas enfatizarei, em virtude das magnitude e complexidade, o Programa de Desenvolvimento de Submarinos que, além da edificação de uma base naval, um estaleiro de construção e um de manutenção em Itaguaí-RJ, nos proporcionará quatro submarinos convencionais e o tão almejado submarino com propulsão nuclear.

Evoluímos na conscientização da sociedade sobre a vocação marítima do País, reforçando o conceito de “Amazônia Azul”, criado na gestão de meu antecessor, o Almirante-de-Esquadra ROBERTO DE GUIMARÃES CARVALHO, e ressaltando as riquezas nela existentes e suas potencialidades, conscientes que nos cabe zelar por esse inestimável patrimônio.

Com esse enfoque, foi fundamental intensificar o trabalho de comunicação social, divulgando o cumprimento de nossas tarefas constitucionais, tais como o emprego do Poder Naval nos exercícios singulares ou conjuntos; a atuação em missões de paz sob a égide da Organização das Nações Unidas; as ações relacionadas à Patrulha Naval e à segurança do tráfego aquaviário; o apoio à Política Externa; a cooperação com a segurança pública; e a permanente colaboração para o desenvolvimento nacional e para a defesa civil.

As recordações são pungentes e fazem relembrar os idos de 1959, quando cheguei à Angra dos Reis, para ingressar no Colégio Naval. Naquela oportunidade, com apenas dezesseis anos, não poderia antever que estaria principiando uma duradoura trajetória e que seria, dentre aqueles rapazes, que viriam a constituir a Turma Mendes, o que atingiria o posto máximo da nossa querida e digna carreira.

Assim, por ser sabedor que chegaria a hora de não mais usar os uniformes que venho envergando com orgulho e devoção, desde aquela época, é com espírito sereno e pronto para o futuro, que enfrento esse instante, já bastante próximo.

No decorrer da longa singradura, desfrutei de momentos inesquecíveis a bordo dos navios nos quais servi, onde pude completar 1.589 dias de mar e 7.683 dias de embarque, tendo sido agraciado com a Medalha Mérito Marinheiro – quatro âncoras de prata.

Durante essa jornada, posso garantir que empreguei, a cada minuto, as minhas maiores energia e disposição em benefício do serviço. Foram passagens que, dificilmente, serão esquecidas, como o dia-a-dia nas diversas unidades; o retorno à harmonia do lar; as mudanças de sede, permitindo conhecer distintas realidades; e, por que não citar, os obstáculos inerentes a cada função, que levaram a uma melhora de desempenho e a um amadurecimento, por meio da absorção de conhecimentos técnico-profissionais e da interação social. Caso fosse possível regressar no tempo, conscientemente repetiria tudo outra vez.

O turbilhão de sentimentos, que invade a mente nos instantes que antecedem a uma partida, não pode nos privar de reconhecer as pessoas que nos ajudaram a construir a própria caminhada. Assim, por dever de justiça e de gratidão, apresento os meus sinceros agradecimentos àqueles cujo apoio foi a tônica nos relacionamentos:

– ao ex-Presidente da República LUIZ INÁCIO LULA DA SILVA e à Presidenta da República DILMA ROUSSEFF, pela confiança ao nomear-me para o cargo e pelas várias demonstrações de apreço;

– aos Ministros da Defesa com quem tive o prazer de trabalhar, Dr. WALDIR PIRES, Dr. NELSON JOBIM e Embaixador CELSO AMORIM, pelos incentivo e consideração sempre dispensados e pela permanente disposição em buscar atender às demandas. Ao Dr. JAQUES WAGNER, por sua presença nesta solenidade, presidindo-a, o que corrobora o seu apreço pela Força e abrilhanta esse dia muito especial; </span>

– aos Membros dos Poderes Executivo, Legislativo e Judiciário, por terem recepcionado positivamente as nossas principais iniciativas, procurando auxiliar em quase todas as ocasiões;

– aos ex-Comandantes do Exército, General-de-Exército ENZO MARTINS PERI e da Aeronáutica, Tenente-

Brigadeiro do Ar JUNITI SAITO, pela maneira equilibrada e amiga com que sempre trabalhamos, propiciando uma contínua e harmoniosa cooperação;

– ao Chefe do Estado-Maior Conjunto das Forças Armadas, General-de-Exército JOSÉ CARLOS DE NARDI, pelo cordial relacionamento e pelos esforços em prol da interoperabilidade, e, ao ex-Secretário-Geral do Ministério da Defesa, Dr. ARI MATOS CARDOSO, pela coordenação das atividades e sua perfeita articulação;

– aos ex-Ministros e ex-Comandantes da Marinha, dos quais estão presentes os Almirantes-de-Esquadra ALFREDO KARAM, MAURO CESAR RODRIGUES PEREIRA e ROBERTO DE GUIMARÃES CARVALHO, pelas atuações em suas respectivas épocas, que viabilizaram o processo de evolução que tem indicado o rumo a seguir, permitindo alcançar a posição de destaque que desfrutamos atualmente; e aos antigos Chefes, cujos legados são permanentes e a quem devo bastante, por seus exemplos de conduta e pelos aconselhamentos;

– aos Membros do Almirantado, pela permanente parceria, e por terem dividido comigo os sucessos e as adversidades, assessorando-me e facilitando, sobremaneira, as resoluções do Comando;

– aos demais Almirantes, pela execução primorosa de suas atribuições em todos os setores, fazendo com que as determinações e instruções fossem cumpridas da forma mais eficaz;

– à tripulação do meu Gabinete, pelas aplicação e tenacidade ímpares; em particular, aos meus Chefes do Gabinete, Almirante-de-Esquadra AIRTON TEIXEIRA PINHO FILHO, e Vice-Almirantes BENTO COSTA LIMA LEITE DE ALBUQUERQUE JUNIOR e CELSO LUIZ NAZARETH, pela ajuda amiga, franca e leal;

– aos Oficiais e Praças, dos diversos Corpos e Quadros, e servidores civis dos três níveis, pelo auxílio inestimável e pelo comprometimento com as metas estabelecidas, a partir de um indispensável esforço diuturno;

– aos componentes da Instituição que, enquanto esta Cerimônia se desenrola, encontram-se afastados de seus lares, desenvolvendo a atividade operativa precípua, adestrando-se em seus navios; patrulhando nossas Águas Jurisdicionais; levando assistência médico-hospitalar às populações ribeirinhas dos rios da Bacia Amazônica e do Pantanal com os “Navios da Esperança”; navegando nas desafiadoras águas antárticas e dando sustentação à Ciência; levando a mensagem de paz e de brasilidade nas diversas missões sob a égide de organismos internacionais, em especial no Haiti e no Líbano, por conduzirem, com altivez, o Pavilhão Nacional e zelarem, despretensiosamente, pelos interesses maiores do País;

– aos que já se encontram na inatividade, pelas colaboração e palavras de incentivo;

– aos SOAMARINOS, pelas manifestações de amizade e valiosa contribuição para a disseminação da importância da “Amazônia Azul” e para a consolidação de uma mentalidade marítima;

– aos companheiros da Turma Mendes, pelo estímulo constante e, sobretudo, pela amizade construída, desde quando, ainda muito jovens, chegamos à Enseada Batista das Neves e à Ilha de Villegagnon;

– a minha mãe LOURENÇA, pelos permanentes carinho, dedicação e afeição, e pela incansável torcida por novos triunfos. Presto uma homenagem aos já ausentes, meu pai CLAUDIO e meu irmão, Aspirante MOURA, este que partiu cedo demais, mas que, certamente, se aqui estivessem, estariam muito felizes por verem encerrar mais essa fase do meu extenso percurso;

– a minha esposa SHEILA, companheira de mais de quarenta e seis anos de casamento, de modo especial, pelo amor, pela cumplicidade, por estar sempre ao meu lado e pelo esforço notável e pioneiro à frente das Voluntárias Cisne Branco que, além dos trabalhos de cunho social, reforçou, em muito, os laços de união entre as mulheres da Família Naval. Faço a você a promessa de uma maior disponibilidade;

– a meus filhos CLAUDIO, FERNANDO E EDUARDO, dos quais tenho muito orgulho, pela superação do que decerto sofreram com as muitas ausências, geradas pela intensa vida profissional; às minhas noras; e aos netos LUANA, PEDRO, MIGUEL e JÚLIA, pelas afetuosidade, pureza e meiguice, que têm trazido uma nova dimensão às nossas vidas; e

– aos familiares e amigos, que sempre acompanharam os meus passos, pelas manifestações de carinho e companheirismo, e,

– por fim, elevo meu pensamento a Deus, reconhecendo sua permanente proteção e dádivas concedidas.

Ao encerrar a última pernada da prazeirosa viagem a bordo da Marinha, completo a atracação ao cais e autorizo “dobrar a amarração e passar a prancha para terra”. Ao término da faina, e assim que o meu pavilhão for arriado, terá chegado o momento de desembarcar, não sem antes transferir o timão às firmes e competentes mãos do novo Comandante.

Prezado amigo, Almirante LEAL FERREIRA!

Dentro de poucos minutos, Vossa Excelência será o timoneiro de uma Instituição secular, dotada de peculiar cultura organizacional, formada por motivados homens e mulheres que juraram “defender a Pátria com o sacrifício da própria vida, se preciso for” e que estão prontos para receber e atender suas ordens e orientações.

Certamente, eles estarão ao seu lado quando o mar se tornar encapelado e lhe darão respaldo quando for manobrar para ganhar barlavento. Fruto de suas experiência de vida e bagagem profissional, aliadas a uma maneira afável de proceder, não resta dúvida que saberá conduzí-los a um destino promissor. Assim, desejo que Deus o ilumine em todas as suas decisões, além de abençoá-lo com alegrias e realizações, votos estes extensivos às suas estimadas mãe, Dona LYGIA, e esposa, CHRISTIANI, e família.

“SINALEIRO! IÇAR A FLÂMULA DE FIM DE COMISSÃO” !

“GERAL DE COMANDO: MANOBRA COM O ALMIRANTE LEAL FERREIRA” !

VIVA A MARINHA!

VIVA O BRASIL!

JULIO SOARES DE MOURA NETO

Almirante-de-Esquadra

Comandante da Marinha

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